Acho que o homem estava vestido de castanho. Chamava-se Jorge... acho eu. Falava para um auditório cheio de gente, julgo.
Anunciava-me.
Penso que disse o meu nome, contou um pouco da minha infância, umas quantas estranhas histórias clínicas, uma pequena introdução. Até que me pareceu que me chamou ao púlpito. Olhei para ele com um ar de interrogação. Ele abanou a cabeça afirmativamente e fez um gesto com a mão, chamando-me. Eu levantei-me e coloquei-me no lugar que ele deixara para mim. Todos olhavam para mim. Jovens e velhos, homens e mulheres, todos atentos... mas não tenho bem a certeza. Com algum esforço, lembrei-me que tinha uma folha de papel com um discurso que me ajudaram a escrever no dia anterior, e comecei a lê-lo.
- Boa tarde. - comecei eu, a medo. - O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. Desde sempre me conheci assim. Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores... - parei exitante. Não tinha bem a certeza se já tinha lido até onde o meu dedo indicava, ou se me estaria já a repetir. - Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores e familiares que me ajudaram da melhor maneira a ultrapassar algumas das dificuldades que esta condição me impõe.
Não tinha a certeza se me fixavam a mim ou à grande fotografia a preto e branco projectada na parete atrás de mim. Não tinha a certeza...
- Tanto quanto se sabe, sou o único caso registado... caso registado. Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim... - parei novamente. Um minuto... dois... - Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim mantêm-se as dúvidas e as repetições, pelas quais peço desculpa.
Parei novamente. Olhei para o papel. Não sabia se tinha começado a ler. Se já tinha lido tudo. "Meu deus!" Perdi-me... acho eu. Não sabia bem em que parte do texto ia. Apercebi-me que inspirei fundo. Será que tinha parado de respirar por momentos? Será que eu estava a falar alto o suficiente. Não me lembrava se tinha tirado o meu dedo do papel porque tinha acabado o discurso, ou simplesmente porque sim. Olhei para o homem que se chamava Jorge, mas sem certezas do seu nome. Ele olhou para mim e piscou-me o olho. O sinal para avançar para o final do discurso. Olhei para baixo, para a folha de papel. Será que ele me tinha realmente feito o sinal?
Olhei para o homem cujo nome não me lembro bem se decorei ou não. Acho que era Jorge, mas posso estar só a inventar. Piscou-me o olho outra vez. Olhei para baixo, para a folha de papel. Ia avançar para o fim do discur-so. A última frase do último parágrafo.
- Sofro de SIPC, aquilo a que chamaram de síndrome da incerteza própria constante... aquilo a que chamaram síndrome da incerteza própria constante.
Será que acabei de ler o discurso? Ou ainda não tinha começado? Será que o homem que, julgo eu, se chamava Jorge, me tinha dado o sinal?
Será que tinha respirado no último minuto?
Anunciava-me.
Penso que disse o meu nome, contou um pouco da minha infância, umas quantas estranhas histórias clínicas, uma pequena introdução. Até que me pareceu que me chamou ao púlpito. Olhei para ele com um ar de interrogação. Ele abanou a cabeça afirmativamente e fez um gesto com a mão, chamando-me. Eu levantei-me e coloquei-me no lugar que ele deixara para mim. Todos olhavam para mim. Jovens e velhos, homens e mulheres, todos atentos... mas não tenho bem a certeza. Com algum esforço, lembrei-me que tinha uma folha de papel com um discurso que me ajudaram a escrever no dia anterior, e comecei a lê-lo.
- Boa tarde. - comecei eu, a medo. - O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. Desde sempre me conheci assim. Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores... - parei exitante. Não tinha bem a certeza se já tinha lido até onde o meu dedo indicava, ou se me estaria já a repetir. - Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores e familiares que me ajudaram da melhor maneira a ultrapassar algumas das dificuldades que esta condição me impõe.
Não tinha a certeza se me fixavam a mim ou à grande fotografia a preto e branco projectada na parete atrás de mim. Não tinha a certeza...
- Tanto quanto se sabe, sou o único caso registado... caso registado. Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim... - parei novamente. Um minuto... dois... - Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim mantêm-se as dúvidas e as repetições, pelas quais peço desculpa.
Parei novamente. Olhei para o papel. Não sabia se tinha começado a ler. Se já tinha lido tudo. "Meu deus!" Perdi-me... acho eu. Não sabia bem em que parte do texto ia. Apercebi-me que inspirei fundo. Será que tinha parado de respirar por momentos? Será que eu estava a falar alto o suficiente. Não me lembrava se tinha tirado o meu dedo do papel porque tinha acabado o discurso, ou simplesmente porque sim. Olhei para o homem que se chamava Jorge, mas sem certezas do seu nome. Ele olhou para mim e piscou-me o olho. O sinal para avançar para o final do discurso. Olhei para baixo, para a folha de papel. Será que ele me tinha realmente feito o sinal?
Olhei para o homem cujo nome não me lembro bem se decorei ou não. Acho que era Jorge, mas posso estar só a inventar. Piscou-me o olho outra vez. Olhei para baixo, para a folha de papel. Ia avançar para o fim do discur-so. A última frase do último parágrafo.
- Sofro de SIPC, aquilo a que chamaram de síndrome da incerteza própria constante... aquilo a que chamaram síndrome da incerteza própria constante.
Será que acabei de ler o discurso? Ou ainda não tinha começado? Será que o homem que, julgo eu, se chamava Jorge, me tinha dado o sinal?
Será que tinha respirado no último minuto?