17 de Janeiro de 2010

23

Acho que o homem estava vestido de castanho. Chamava-se Jorge... acho eu. Falava para um auditório cheio de gente, julgo.
Anunciava-me.
Penso que disse o meu nome, contou um pouco da minha infância, umas quantas estranhas histórias clínicas, uma pequena introdução. Até que me pareceu que me chamou ao púlpito. Olhei para ele com um ar de interrogação. Ele abanou a cabeça afirmativamente e fez um gesto com a mão, chamando-me. Eu levantei-me e coloquei-me no lugar que ele deixara para mim. Todos olhavam para mim. Jovens e velhos, homens e mulheres, todos atentos... mas não tenho bem a certeza. Com algum esforço, lembrei-me que tinha uma folha de papel com um discurso que me ajudaram a escrever no dia anterior, e comecei a lê-lo.
- Boa tarde. - comecei eu, a medo. - O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. O meu nome é Carlos. Tenho 52 anos. Desde sempre me conheci assim. Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores... - parei exitante. Não tinha bem a certeza se já tinha lido até onde o meu dedo indicava, ou se me estaria já a repetir. - Sempre assim. Tive a sorte de ter tutores e familiares que me ajudaram da melhor maneira a ultrapassar algumas das dificuldades que esta condição me impõe.
Não tinha a certeza se me fixavam a mim ou à grande fotografia a preto e branco projectada na parete atrás de mim. Não tinha a certeza...
- Tanto quanto se sabe, sou o único caso registado... caso registado. Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim... - parei novamente. Um minuto... dois... - Actualmente a forma mais fácil de comunicar é lendo o que me ajudam a escrever. Mas mesmo assim mantêm-se as dúvidas e as repetições, pelas quais peço desculpa.
Parei novamente. Olhei para o papel. Não sabia se tinha começado a ler. Se já tinha lido tudo. "Meu deus!" Perdi-me... acho eu. Não sabia bem em que parte do texto ia. Apercebi-me que inspirei fundo. Será que tinha parado de respirar por momentos? Será que eu estava a falar alto o suficiente. Não me lembrava se tinha tirado o meu dedo do papel porque tinha acabado o discurso, ou simplesmente porque sim. Olhei para o homem que se chamava Jorge, mas sem certezas do seu nome. Ele olhou para mim e piscou-me o olho. O sinal para avançar para o final do discurso. Olhei para baixo, para a folha de papel. Será que ele me tinha realmente feito o sinal?
Olhei para o homem cujo nome não me lembro bem se decorei ou não. Acho que era Jorge, mas posso estar só a inventar. Piscou-me o olho outra vez. Olhei para baixo, para a folha de papel. Ia avançar para o fim do discur-so. A última frase do último parágrafo.
- Sofro de SIPC, aquilo a que chamaram de síndrome da incerteza própria constante... aquilo a que chamaram síndrome da incerteza própria constante.
Será que acabei de ler o discurso? Ou ainda não tinha começado? Será que o homem que, julgo eu, se chamava Jorge, me tinha dado o sinal?
Será que tinha respirado no último minuto?

2 de Janeiro de 2010

22

A luz da manhã entrou pela janela acertando-me nos olhos. Meu deus! Tinha frio. Fui tarde para a cama. Quando lá cheguei ela já dormia... e continuava agora a dormir. Mas porquê? Já era de manhã! Com jeitinho para não a acordar enfiei-me debaixo dos cobertores. Como estava quentinho ali dentro e como cheirava maravilhosamente. O cheiro dela...
Torci-me todo na cama e fui de cabeça para o fundo. Lambi-lhe lentamente os dedos dos pés, intercalando com pequenas trincas. Ela estremeceu e soltou um pequeno gemido. Continuei... subi mais um pouco... lambia-lhe as pernas saborosas. E aquele cheiro... como adorava aquele cheiro. Continuei a subir. Ela estremecia e soltava pequenos gemidos de vez em quando. Hmmm...
O sabor da pele dela. O cheiro do seu corpo. Adorava aquilo.
Continuei a subir e a subir, lambendo-lhe todo o corpo. Até que ela acordou e se sentou na cama num salto.
Ia recompensar-me! Eu sabia que ia recompensar os mimos que eu lhe dava. Mas a expressão dela ficou estranha. Franziu o sobrolho.
Eu conhecia aquela expressão... mas não sabia bem o que significava, até que ela apontou para fora da cama e começou a gritar:
- Já disse para não vires dormir para aqui!! Cão mau! Cão mau! Xô!

Eu saltei para fora da cama, não entendendo bem o que dizia. Certamente quer que para a próxima lhe comece logo a lamber a cara!

13 de Dezembro de 2009

21

A ratazana jazia ali no chão húmido à minha frente. Ainda fumegava, enchendo a cela com um cheiro a carne chamuscada. Afinal ainda nem tudo se mantinha adormecido.

Ao longo da vida, mais curta ou mais comprida, toda a gente comete erros. Uns erros mais graves, outros menos.
Os meus foram graves. Foram muito graves. Quando uma pessoa vive revoltada com a vida, com o passado longínquo e recente comete certos actos cuja gravidade só entende quando chega a velho. Muitos têm a sorte de morrer antes de chegar a velho. Muitos partem antes da consciência se tornar insuportavelmente pesada.
Era suposto ser esse o meu destino.
Torturei e matei das piores formas possíveis. Homens, mulheres, crianças... Fiz coisas horríveis.
E o meu destino seria, supostamente, horrível. A minha sentença era arder num poço de fogo. Morrer com quase tanta dor como aquela que provoquei aos que matei.
Mas algo aconteceu. Naquele poço não ardia um fogo qualquer. Ardia o fogo dos espíritos do fogo. Ardia o fogo daqueles que nascem das brasas e que governam no reino das cinzas. E não me abandonaram.
Ardi, mas não me queimei. Fugi. E aí começou o pior. Destruí, matei, queimei. O mal que havia feito antes não se comparava em nada com o que fiz depois. Mas não era eu que queimava, era o fogo que se apoderara de mim.
Por fim conseguiram prender-me. E já perdi a conta dos anos que estou enfiado nesta prisão. Aqui envelheci, não tanto quanto todos os outros, mas os anos foram os mesmos. Aprendi. E a consciência pesa...
Tantos anos que achava que o fogo estava adormecido...

Quando a ratazana começou a roer um dos cantos do meu colchão, fechei os olhos, levantei a mão, ouvi um estalo, um guincho, e quando dei conta, o animal estava ali contorcido, ainda com a ponta da cauda a arder, e parte do corpo carbonizado.

6 de Dezembro de 2009

20

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- Como é que esta... coisa é o descendente do... primeiro homem?! Que raio de história é essa?
- Há pouco mais que lhe possa dizer.
Mal acabou de dizer esta frase, o carro parou. O motorista abriu a porta e saiu. O homem ao meu lado abriu a porta do lado dele e saiu. Apressei-me a sair logo do carro. Estávamos no meio de um campo de milho que, quanto me era permitido ver, bem que podia ser infinito. À minha frente estava uma casa rústica... mas um rústico caro. Um rústico muito caro. Parecia uma daquelas casas de turismo rural, onde só passa férias quem tem muito dinheiro.
Guiaram-me para a entrada. O motorista tirou uma chave do bolso e abriu a porta, fechando-a novamente à chave depois de nos deixar entrar.
Seguimos até um escritório com paredes forradas de estantes e quadros de aspecto valioso. Atrás de uma secretária, que mais parecia uma mesa de jantar,  atafulhada e folhas soltas e livros grossos abertos, estava um homem que deveria ter mais de setenta anos, apesar de o seu olhar por detrás daqueles óculos de armação fina parecer muito mais jovem.
- Sente-se e pouse a caixa aqui. - disse-me ele. E assim o fiz.
Tirou da gaveta um saco de plástico que guardava em vácuo duas luvas imaculadas de algodão. Abriu-o, calçou-as e pegou na caixa com todo o cuidado, pousando-a na beira da mesa, junto a ele. Ainda mais cuidadosamente abriu a caixa e olhou para o seu interior. Olhou e continuou a olhar durante mais de cinco minutos. Aproveitei para olhar à volta e aperceber-me que tínhamos ficado os dois sozinhos no escritório.
- Sabe... não somos descendentes dos macacos. - disse o homem, com a maior das naturalidades, apesar do tom sério e escuro da sua voz. A afirmação pareceu surgir do nada. O que raio tinha a ver com aquela... coisa na caixa?
- Desculpe...
- Sim, somos muito parecidos com os primatas, mas não somos primatas. Toda a parecença não passa de uma coincidência muito grande. Ou talvez não... no fundo, as condições originais onde fomos criados e as deste planeta não são assim tão diferentes. Talvez ser primata seja um destino evolutivo...
- Como? Desculpe, eu não estou a entender nada do que está a dizer.
- Este espécimen aqui mumificado, é um dos primeiros... chamemos-lhes homens, que caminharam na Terra. Eu sei que tem um aspecto curioso mas... já devemos das graças por ainda estar intacto.
Permaneci em silêncio.
- O seu tio entregou-lhe esta relíquia porque sabia que era perseguido e com ele não estaria em segurança. Nem nós o estaremos se ficarmos aqui muito tempo.
- Ouça... explique-me por favor o que se está a passar aqui! Eu não pedi nada disto, não fiz mal a ninguém! E não entendo a ponta de um corno daquilo que está para aí a dizer.
O homem deixou-se ficar em silêncio, respirando fundo. Pareceu-me que contrariava a vontade de desatar a berrar.
- De um modo muito simples, caro senhor, nós, os humanos, nunca fomos macacos. Sempre fomos humanos. Humanos que no fundo não são mais do que criaturas doentes...
- Como?
- Quando viram que tinhamos a doença, livraram-se de nós, atirando-nos para uma rocha qualquer no meio do espaço, a que hoje chamamos Terra.
- Desculpe?
- Nós não somos de cá...

17 de Novembro de 2009

19

Desci o autocarro, enquanto abria o guarda-chuva para me abrigar da chuvada torrencial daquele fim de tarde. Não serviu de muito. A ventania arrancou-mo das mãos enquanto tentava abotoar a gabardina. Não havia problema. Continuei o meu caminho de trezentos metros até casa, à chuva e ao vento. Cada gota escorrendo-me pelo cabelo pelos meus ombros, escorrendo-me pelo pescoço, escorrendo pelas minhas costas abaixo, deixando-me enregelado.
Tranquei a porta, tirei o casaco e pendurei-o no bengaleiro, pingando o chão. O gato, contrariamente ao costume, não se veio roçar nas minhas pernas. Ficou apenas a fitar-me com aqueles olhos amarelos, desejando que eu estivesse seco e quente.
Percorri o hall e entrei no quarto-de-banho de serviço. Desapertei a camisa e tirei-a. Despi a t-shirt que tinha por baixo. Tirei os sapatos encharcados. As meias. As calças. Os boxers. Entrei na banheira e tomei um longo banho de água quase demasiado quente.
Saí do chuveiro, sequei-me no meio do vapor que mal me deixava ver o rosto daquele eu que estava no espelho.
Abri a porta do quarto-de-banho, ainda nú e sorri para o gato, que desta vez se enroscou no meio dos meus pés como se não me visse à séculos.
" Ainda de manhã me viste, criaturinha."
Subi as escadas. Havia chegado a hora.
Todos os planetas do sistema solar estavam de acordo com o que os antigos tinham dito. Tal posição só daqui a cinco mil trezentos e vinte e três anos voltará a acontecer. Mas se continuássemos assim não haveria vida na Terra para o poder presenciar.

O quarto estava limpo e arrumado. Em cima da cama estava a mala de couro que tinha lá pousado pela manhã, antes de sair para o trabalho. Abri-a e comecei a vestir o que estava lá dentro.
Para a mão direita, uma luva normal. Para a mão esquerda, uma luva que me subia quase até ao ombro. Uma espécie de camisola sem mangas, aberta até ao plexo solar. Uma túnica até aos pés, com mangas largas, aberta até ao meu umbigo. Um capuz com uma capa quer me caía pelas costas e que seguirei com o braço esquerdo.
Sentia o tecido leve mas quente em cada célula do meu corpo limpo. Quase que sentia cada um dos desenhos que preenchiam cada pedaço das vestes. Marcas antigas, algumas delas demasiado poderosas para serem lidas ou interpretadas por um qualquer.
Senti toda a força daquelas vestes trabalhadas a crescer em mim.

Saí do quarto e desci as escadas. No hall o casaco continuava a pingar o chão, no canto.
Caminhei para o centro... elevei a mão direita, como que chamando a energia do universo, e aterrei a palma no chão de madeira, entre os meus pés.
Senti tudo parar. Uma gota de água ficou a meio caminho do chão. Os pelos do gato ficaram a meio caminho de se eriçarem. Lá fora a chuva parara no ar. Uma criança ficou com o queixo a milímetros do chão, depois de escorregar numas folhas caídas.
Tudo parou.
E tudo se encheu de luz.